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terça-feira, 29 de outubro de 2013

LUAS DE MARIAS

Romance de Wind Rose e Diedra Roiz
Escrito entre Agosto e Dezembro de 2013 



Em breve em versão impressa (livro) e digital (ebook) publicadas pela Editora Vira Letra! Para acompanhar e ter novidades de primeira mão basta acessar: 





ATENÇÃO: Os direitos autorais desta obra foram adquiridos pela Editora Vira Letra, que irá publicá-la em versão impressa (livro) e digital (ebook) em breve, por isso a história não está mais disponível na íntegra. 



PLÁGIO É CRIME! NÃO COPIE, CRIE! 
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Lembrando que... Copiar o texto e apenas trocar o nome das personagens e/ou detalhes da história não é fanfiction, muito menos adaptação, é plágio. E plágio é crime! Por favor, não façam isso, ok?



SINOPSE
Tudo o que Cris queria era... Prosseguir? Vencer os obstáculos inúteis que se interpunham entre onde estava e onde queria chegar. Mas o sinal estava vermelho e ela, obediente que era, parou. Uma artista de rua dançando loucamente na faixa. Ou era o mundo que estava louco? Buzinas, motor, pressa. Tudo desapareceu no encanto do olhar que encarava o seu. No momento em que todas as certezas desaparecem e o adequado e preciso são tão postos à prova, só o que ilumina o caminho é a luz do luar. (Célia Ma) 
 
Lua... Lua cheia de leveza e colorido, lua que míngua sob o incomensurável peso de ser quem não se é. Lua nova no céu estrelado, nada mais é do que lua que não está ali quando se espera, mas que volta a crescer, tornando o ciclo completo e a vida daqueles que ousaram olhar para o céu e conhecer seus sinais, nunca mais perderá o brilho prateado do luar. 
Cris olhou para o semáforo e, ao invés das luzes coloridas que regem o prosseguir meticuloso, encontrou leveza e loucura reunidas num corpo que traduzia as cores. Mas encontro de quem caminha em direções opostas ocupa só por um instante o mesmo lugar. Um instante mágico, único e valoroso. No segundo seguinte, as peças trocam de lugar. Assim a enluarada dançarina observava o movimento dos carros no cruzamento. Sem saber que a partir daquela troca de olhares, sua vida seguiria o mesmo destino. (Carla Gentil)


Advogada que foge de qualquer tipo de relacionamento encontra artista de rua em sinaleira. Onde levará esse encontro? O que esse relacionamento pode surtir, uma mescla dessas vidas tão distintas ou uma fuga? Elas encontrarão um ponto em comum? (Rê de Paulo)




OBSERVAÇÃO SUPER IMPORTANTE:  
Este é um "romance musical", recomenda-se ouvir as músicas indicadas para melhor aproveitamento da leitura dos capítulos.


MÚSICAS QUE INSPIRARAM A HISTÓRIA:







CAPÍTULO 01



CAPÍTULO 01



- Será que se eu também buzinar o congestionamento some?

Me perguntava isso cada vez que chegava neste ponto da cidade... O barulho das buzinas causando uma sensação de caos, um desespero de mover-se... Mesmo aqueles que não estavam com tanta pressa assim a adquiriam... Como eu.

Lentamente venci o acesso a Avenida Beira Mar e enfim... 

Vermelho...

- Droga!

Mas lembrei que não tinha pressa, porém ficar parada mesmo que no sinal é algo inadmissível nos tempos de hoje... Pressa. Mesmo sem tê-la, tenho que dar a impressão que a tenho.

Suspirei.

Não que o vermelho fosse algo horroroso, até gostava. Mas naquele momento era a cor que eu menos precisava.

Precisava menos ainda daqueles “artistas de rua”.  Será que não percebem a desconexão existente entre minha necessidade de chegar ao meu destino e de suas habilidades inúteis?

- Merda!

A única palavra que consegui gritar no momento em que o menino com rastafári jogou para cima um pequeno cone colorido e deu uma cambalhota antes de pegá-lo novamente.

Contei os segundos... Sabia o passo seguinte...

Peguei uma nota de cinco reais que estava no console do carro, coloquei no chapéu velho que o outro me estendeu... Como se aquilo fosse apressar o “Grand Finale”, que se estendeu por mais alguns segundos.

A sensação de alivio, de dever cumprido se instaurava... Como dizia Raul Seixas: “O auge do meu egoísmo é querer ajudar”.

Verde!

Acelerei... Em direção aquilo que considerava realmente importante.

Cheguei ao escritório cedo, mas a eficiente senhora Herminia já estava lá, no seu posto. Me olhou com aquele olhar de quem está prestes a bater continência, mas se limitou a um “Bom dia” e como sempre não esperou minha resposta, levantou-se e estendeu-me o envelope amarelo:

- A doutora Diana deixou algumas orientações para a audiência de hoje e pediu que a senhorita comunique a ela o resultado imediatamente após o término.

Por pouco não fui eu a bater continência a ela... Sempre a temi, desde o primeiro dia que entrei naquele escritório, há mais de 12 anos.

- Tudo bem, dona Herminia, farei.

- Solicitou também que a senhorita acompanhe de perto os processos que o doutor Henrique e o doutor Gabriel estão trabalhando, principalmente os contratos do MF Estaleiro.

Suspirei e apenas fiz sinal com a cabeça, pois já estava concentrada em abrir o envelope na minha mão. Sabia o que significava acompanhar de perto, pois elas não tinham segurança nos dois estagiários contratados para dar apoio em alguns casos do escritório. E, quando tratava-se dos negócios do senhor Roberto Ávila,  pior ainda.

Ia fechando a porta da minha sala quando ela interrompeu:

- Doutora Maria Cristina...

Odiava quando ela me chamava de Maria. Suspirei e esperei que ela continuasse...

- Sua... Digo, a senhorita Mirella ligou e não deixou recado.

Mesmo assim compreendi a mensagem de Mirella, pois a ausência de recados significava muito naquele momento.

- Obrigada.

Fechei a porta e me concentrei no dia que teria pela frente, pois Diana e Inês haviam viajado de férias e me deixado a responsabilidade do escritório, o que para mim era fácil. Advogados, estagiários, clientes, juízes... Nada que eu não estivesse preparada. Difícil era dar conta de todas as plantas, gatos e cachorros que elas tinham em casa. Apesar da ajudante que tinham, exigiram veementemente que eu fosse todos os dias ver como eles estavam.

- Eles precisam de carinho de alguém que eles conhecem, alguém da família. Precisam saber que são amados e que não foram abandonados, você sabe como isso dói.

Inês me convencia sempre com chantagem emocional...

As duas eram o mais perto que eu já tive do conceito família.  Encontrei-as, ou elas me encontraram, em um momento da minha vida que foi crucial para mudar o rumo daquilo que poderia nunca ter sido. Ainda na Universidade, morando em uma pensão cheia de ratos e cheirando a mofo, conheci-as em uma entrevista para estágio... Perceberam em mim algo que, segundo Diana, se aproximava de “um diamante bruto” e, segundo Inês, “uma pérola ainda na ostra”.

Adotaram-me. Amo-as como amaria meus pais, caso os tivesse... No princípio morei num anexo que havia no andar de baixo da cobertura tríplex que moravam, mais tarde me convenceram a ocupar um dos quartos da parte íntima e me tornei parte da família, logo formada e preparada por elas, assumi minha vida com toda a independência que elas me permitiram, comprei um apartamento, porém perto delas. Transformei-me na “jóia rara” que idealizaram. A Advogada competente e na mulher nem tão competente assim, pois o sucesso na carreira era inversamente proporcional ao meu sucesso nas relações amorosas...

No retorno para casa, o mesmo trajeto... A sinaleira novamente, o cone, a cambalhota...

Um suspiro de desânimo, desviei o olhar por alguns instantes e a vi...   

Atrás dela, o mar, o sol caindo, a lua surgindo... A imperfeição da hora, a perfeição das formas...  A moldurava...  Alguns segundos, ela levantou o olhar... Enluarado. Não sei se me viu, um sorriso tímido... Correspondi. Eu a vi.

A buzina do carro atrás me fez retornar à realidade e à pressa... Que eu deveria ter...

Saí daquele transe com a sensação de ter deixado um pouco de mim e carregado junto comigo... Um pouco dela. Naquele olhar.



***

A primeira coisa que fiz ao abrir os olhos foi me espreguiçar... Deixando escapar um gemido...

Rolei sobre mim mesma, para o meu lado direito, onde Dandara estava... Ainda adormecida... Nua... Linda... Beijei-a nos lábios... Ela não acordou, apenas sorriu...

Sentei no colchão e virei para o lado oposto... Artur estava acordado, fumando um bem fininho. Sentou, colou a boca na minha, soltou o ar dentro... Puxei... Soltei... Nós dois rimos. Ele apagou o baseado e trocamos um beijo... O último da maravilhosa noite a três que tínhamos compartilhado. Levantei e caminhei nua até a cozinha.

- Bom dia!

Falei meio cantando para Pedro, que estava sentado perto da porta que dava para o quintal, tocando um Jazz no clarinete. Ele respondeu com notas musicais, no exato momento em que Rosa entrava, com Benvindo enganchado na cintura, só de fralda. Assim que me viu, estendeu os bracinhos, se atirando pra mim. Tirei-o do colo dela, apertei, cheirei, beijei:

- Gostoso!

Depois o joguei para cima. Ele emitiu vários sons fofos de bebê feliz... Voltei a apertá-lo e a beijá-lo, nunca me cansava disso. Só o devolvi para Rosa porque estava morrendo de fome. Ela sumiu com ele para dentro da casa.

Tomei café com leite e comi um pão com manteiga encostada na pia mesmo. Estava lavando a xícara e a colher quando Tito surgiu:

- Maria, você viu a chave da bike?

Coloquei as louças no escorredor e me virei para ele:

- Não tá atrás da porta?

- Não.

- Quem sabe ficou na bolsa da Kika?

Pedro tirou a boca do instrumento rapidamente, apenas para falar:

- Ela tá no quarto laranja.

Depois a cozinha voltou a ser preenchida pela música. Dessa vez um chorinho.

Tito foi atrás de Kika, peguei uma banana na fruteira em cima da mesa e fui lá pra fora comendo. O dia estava lindo. Voltei a sorrir... Juntei as mãos, pressionei-as juntas, as palmas se tocando e os dedos apontando para cima, no centro do meu peito... Olhei para o céu maravilhosamente azul, imenso, infinito... E agradeci mentalmente...

Logo depois, avistei Luiz e Nina fazendo saudação ao sol perto do abacateiro. Joguei a casca de banana no buraco da compostagem e fui me juntar a eles.

Feliz...

Pelo dia que prometia continuar magnífico...



Esperei na calçada...

Amarelo.

Me coloquei na faixa de pedestres, na frente dos carros impacientes. Algumas buzinas rosnavam, competindo com a música que Pedro tocava... Comecei a dançar com os malabares... Braços, mãos, pernas, quadris... O corpo inteiro compondo o movimento... Adorava... Não só o prazer que o Swing Poi¹ me proporcionava, mas a sensação de percepção do tempo...

Vermelho.

O exato momento de parar, agradecer e passar o chapéu... Nem um segundo a mais, nem um a menos... Exato e, no entanto, ritmado não nos ponteiros, mas... Na respiração, na pele, na transpiração, no momento...

Verde.

E eu já estava de volta à calçada. Sentei no meio fio. Virei o chapéu, as notas e moedas caíram na bolsa de retalhos que estava ao meu lado no chão...

Amarelo.

Fiquei olhando para Artur... Com uma precisão incrível, ímpar... Ele jogou o último cone, pegou e deu um salto leão lindo antes de ir em direção aos carros...

Vermelho.

Foi quando eu a vi. Colocou uma nota no chapéu que Artur lhe estendia sem vê-lo. Como se ele não importasse ou quem sabe, nem ao menos existisse. Quando realmente olhou, foi para mim. Nossos olhares se encontraram e nos dela eu não consegui ver direito, estavam... Nublados... Sorri para ela... Querendo desanuviar aqueles olhos de neblina... Ela sorriu de volta e as nuvens realmente se dissiparam um pouco... Mas foi só durante um instante ínfimo... Cortado pelas buzinas...

Verde.

Ela olhou para frente, acelerou e seguiu...



***

Algumas horas depois... O cone, o menino com rastafári... O olhar enluarado, nada mais fazia parte da minha realidade, somente as palavras de Mirella:

- Eu sei que tu saiu com ela, me contaram... E também que não foi somente uma vez, foram várias.

A voz dela era suave, calma... Quase carinhosa...

Ouvi, baixei a cabeça e... Assenti.

- Não vou mentir para você Mirella, aconteceu sim, mas não foi como te contaram, não é o que você está pensando...

Ela me interrompeu:

- Por favor...

Calei.

Ela foi embora, eu fiquei.

Sabia que deveria respeitar a vontade dela, mas não tinha a intenção de tê-la feito sofrer. Naquele momento me culpava por não ter terminado antes, por não ter sido sincera.

Desde o inicio nossa relação estava fadada ao fracasso, o início já anunciava o fim. Uma relação que se fundamenta na ausência da titular... Era isso. Mirella havia perdido seu grande amor...  E eu, estava ali. Foram no total, dois anos: um ano de amizade, de compreensão, seis meses de parceria, namoro, três meses de sexo bom, dois meses de rotina, um mês de infidelidade... Que ela tinha acabado de descobrir.

Fechei a porta e a sensação que deveria ser de pesar foi de total alívio. Me senti culpada por isso. Mas foi por poucos momentos, pois em seguida entendi que minha participação na vida dela havia sido com um objetivo especifico... Ela deveria continuar.  E eu também.

As vezes que saí com outras foram por total acaso do destino, descompromisso com Mirella e tampouco comigo, não pensei em rever ou sequer apaixonar-me por qualquer uma delas... Apenas tesão. Queria testar minha capacidade de frieza e autopreservação, consegui. Egoísmo meu. Mas como dizia Raul Seixas... “O auge...” Enfim...

Minha vida profissional começava toda segunda à tarde... Pois a segunda de manhã era meu momento princesa, cabelos, unhas, massagem... E tudo aquilo que eu precisava para enfrentar a semana...   Uma rotina profissional que não saia do tom, não perdia jamais o equilíbrio tampouco o rumo. Porém...

Minha semana de vida particular totalmente diferente, como boa geminiana, todas as regras impostas pelo trabalho e o dia a dia marcado pelos ponteiros do relógio, se desfaziam no momento em que saia do escritório...  À noite, seguia o fluxo da brisa... Às vezes me levava ao mar, às vezes ao continente. Às vezes tormenta, às vezes calmaria... Mirella surgiu como tormenta e agora... Sequer uma marola erguia. É assim...

Hoje... Quinta... Seguia para a rotina, enquanto houvesse sol, e assim que parei na sinaleira, lembrei-me da lua, aquela que vi no olhar da menina... Mulher, sentada “à beira do caminho”.

Procurei, mas não encontrei. Precisava achar algum dinheiro no console do carro, pois... Rotina. Sem olhar, estendi o braço com a nota de dois reais na mão e larguei no chapéu...

- Obrigada moça...

Assim que ouvi a voz macia, suave... Enluarada... Ela já estava no carro da frente. Uma olhadinha discreta em minha direção, um sorriso. Retribuí?

Os cabelos compridos castanhos... Dourados... Caindo pelas costas... Uma saia longa colorida, blusa branca colada ao corpo com alcinhas fininhas revelando vários desenhos na pele... Fiquei curiosa em conhecê-los... Todos.

Verde... Acelerei sorrindo da minha momentânea fantasia sexual com a moça da sinaleira.

Meu calendário fluía e sempre que passava na sinaleira a procurava... Não mais a vi.



***

Mantive meus olhos erguidos, fixos na lua... Cheia... Magnífica... Seus raios iluminavam minha pele, me traziam força, energia, magia... Uivei em direção a ela...

Pedro e Luís pararam de se beijar para me acompanhar. Rimos.

Tito chegou, sentou na rede em frente à minha, apertando um baseado enquanto dizia:

- Tava pensando da gente sair amanhã, daí podemos ir parando com calma pelo caminho...

Concordei na mesma hora:

- Acho uma ótima.

Dandara chegou, sentou num dos tocos de madeira. Tito perguntou:

- Quando é que a gente tem que chegar lá no festival?

- Sexta.

Ele lambeu a seda, fechou, acendeu, tragou...

- Perfeito! – passou para Dandara antes de completar: - Então vamos amanhã mesmo.

Dandara me passou o baseado. Traguei... Segurei... Soltei... Repeti mais uma vez... Estiquei o braço em direção a Tito, ele fez o mesmo... Pegou da minha mão no instante em que Dandara colocou uma música... Começou a dançar cantando junto:



Could you be loved and be loved?

(Você poderia amar e ser amado?)

Could you be loved and be loved?

(Você poderia amar e ser amado?)

Don't let them fool ya,

(Não deixe eles te enganarem)

Or even try to screw ya! Oh, no!

(Ou mesmo tentarem ferrar você! Oh, não!)

We've got a mind of our own,

(Nós temos a nossa própria mente)

So go to hell if what you're thinking is not right!

(Então vá para o inferno se o que você está pensando não é certo!)





Movi os braços, acompanhando o ritmo preguiçosamente... A brisa trazendo a marola em minha direção... Respirei fundo... Fechei os olhos... A rede continuou balançando bem de leve... Fiquei assim durante um tempo... Apenas... Curtindo aquele momento...



“Could you be loved and be loved?

(Você poderia amar e ser amado?)

Could you be loved, wo now! - and be loved?

(Voce poderia amar, agora! - e ser amado?)

The road of life is rocky and you may stumble too,

(A estrada da vida é rochosa e você pode tropeçar também)

So while you point your fingers someone else is judging you

(Então enquanto você aponta seu dedo outro alguém está julgando você)

Love your brotherman!

(Ame seu irmão!)

Could you be - could you be - could you be loved?

(Você poderia - você poderia - você poderia ser amado?)

Could you be - could you be loved?

(Você poderia - você poderia ser amado?)





Senti um toque suave em meu rosto e abri os olhos... Kika estava me olhando, ajoelhada na minha frente... Me passou o baseado, fumei, ela pegou de volta, passou para Tito, voltou a me olhar... Cheguei para o lado e convidei:

- Quer deitar aqui comigo?

Ela deitou ao meu lado, virada para mim... Aproximou o rosto do meu lentamente... Nossas bocas se encontraram... Um beijo doce, suave e ao mesmo tempo... Deliciosamente ardente... As mãos dela passearam pelo meu corpo, as minhas fizeram o mesmo...  



“Don't let them change ya, oh!

(Não deixe eles mudarem você, oh!)

Or even rearrange ya! Oh, no!

(Ou mesmo rearranjá-lo! Oh, não!)

We've got a life to live.

(Nós temos uma vida para viver)



Nossos lábios se separaram devagar... Meus olhos nos dela... Os dela nos meus... Pediu de uma forma absolutamente meiga:

- Fica comigo hoje?

Me arrepiei inteira... Soprei de volta:

- Sim, eu quero.

Sorrimos juntas... Da mesma forma levantamos da rede... Caminhamos de mãos dadas para dentro de casa... Ao cruzamos a soleira da porta, ainda pude ouvir a voz de Dandara acompanhando Bob Marley:



Could you be loved and be loved?

(Você poderia amar e ser amado?)

Could you be loved, wo now! - and be loved?

(Voce poderia amar, agora! - e ser amado?)





***

Ao final de cada dia passava no apartamento de Diana e Inês, já estava readaptada a rotina da casa... Abria a porta e Toríbio já pulava em minhas pernas, seguido de Floribella, dois buldogues ingleses que eram a vida de Diana. Procurei pelo térreo em busca de Bartolomeu e Serafim, dois gatos persas... Bartolomeu branco como a lua, Serafim negro como a noite. Encontrei-os dentro do roupeiro do quarto delas, escondidos no meio dos casacos. Mais uma caminhada pela casa e encontrei Serena, uma gata angorá cinza. Distribuí biscoitos, cafunés, massagens e algumas palavras sem sentido, que só percebia depois de proferi-las, mas fazia sem culpa, pois os adorava. No fundo sabia que me entendiam mais do que muitas pessoas com as quais convivia.

Me despedia de Dona Marta, a pessoa responsável em cuidar e administrar a casa há alguns anos, e voltava para meu apartamento, meu refúgio... Minha prisão.

Naquela manhã saí de casa com uma satisfação a mais, Diana e Inês retornariam naquela noite e minha vida voltaria para minha anormalidade, pois a rotina de ir toda noite na casa delas já estava me deixando exausta. Apesar de adorar os pequenos, como os chamávamos.

Parei no sinal e...

- Oi moça...

Não tive tempo de percebê-la antes do que ela a mim. Parada na minha janela, abri-a toda. Sorri...

- Oi...

Ela brilhava, não sei se pela luz do dia ou se era eu a iluminá-la, pois minha felicidade em vê-la foi instantânea.

- Tá indo pra lá?

Apontou para a única direção possível de eu ir, pois era uma mão única. Respondi meio que sem entender a pergunta:

- Sim...

- Me leva contigo, preciso ir para lá também.

Sorri com o pedido, entendi que pedia uma carona.

- Claro... Entra...

Falei sem a menor inquietação ou receio. Ela deu a volta, o sinal abriu, alguém gritou para ela:

- Maria... Vai voltar?

Ela se projetou para o meu lado, apoiando as mãos em meus braços que seguravam o volante e respondeu pela minha janela:

- Não sei... Talvez.

 Suas mãos e braços invadindo meu território sem pedir permissão... Não me incomodei. Seus braços roçaram meu corpo, os cabelos com cheiro de flor se espalharam em meu colo, em meu peito, alguns fios em meus lábios... Me preenchendo e tomando meus sentidos um a um... Senti a textura, o cheiro, o sabor. Antes de retornar a posição em seu acento, parou o olhar no meu...

- Valeu...

Afastou-se, acelerei...
  
Nota:
¹Swing Poi: O Swing poi é um instrumento de malabarismo. Consta de uma corda com uma bola no fim, terminado em fitas coloridas. Foi criado pelo povo Māori da Nova Zelândia (poi significa bola no idioma Māori).
Exemplo: http://www.youtube.com/watch?v=1Qj86rubQW0


Música que embala o Capítulo: 
http://www.youtube.com/watch?v=tr-yQaMbQ3o





ATENÇÃO: Os direitos autorais desta obra foram adquiridos pela Editora Vira Letra, que irá publicá-la em versão impressa (livro) e digital (ebook) em breve, por isso a história não está mais disponível na íntegra. 

postado originalmente 29 de Outubro de 2013 às 18h. 

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